Acorda, eleitor!

Por Dorrit Harazim

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O mundaréu de brasileiros sinceramente chocados com o assassinato de Marielle Franco passa a ter uma dívida com a vereadora carioca. E com o próprio país: dimensionar com mais zelo o voto que deposita em representantes na Câmara municipal de suas cidades. Em meio ao costumeiro emaranhado de siglas e cacofonia de nomes, boa parte do eleitorado nacional considera a escolha de um vereador quase um estorvo. Uma espécie de apêndice menor nas cédulas da democracia representativa. Por automatismo partidário ou dica de algum amigo, decora-se um nome de última hora, anota-se o número, e pronto. Assim as câmaras municipais vão sendo loteadas.

Marielle Franco pode ter implodido esse confortável descaso. E ela o fez não como vítima de matadores, mas em vida, dando consistência aos quase 50 mil votos recebidos. Quem tiver preguiça de ser cidadão e não fizer o dever de casa nas próximas eleições municipais, não merece tê-la pranteado esta semana.

Em meio à caudalosa torrente de testemunhos de homenagens dos últimos dias, uma jovem pinçada ao acaso disse o essencial: “A sensação é que mataram a gente. Ela era a gente”. Variações da mesma frase já haviam sido pronunciadas por outros famosos ou não, mas soou mais densa na boca da garota de fala mansa. Ela era moradora da Maré, o complexo de 16 favelas espraiado na Zona Norte do Rio onde Marielle nasceu, cresceu e à qual injetou orgulho.

Uma vereadora em primeiro mandato ter tamanho impacto sobre o dia a dia de tantos munícipes é inédito. Talvez catapulte mais Marielles para preencher o vasto vazio deixado por esta linda mulher. Uma das primeiras negras a chegar à Câmara Municipal do Rio, a vereadora, que faria 39 anos em julho, elegeu-se apesar da urticária que a sigla PSOL, partido ao qual era filiada, provoca. Não apenas na direita, mas também em quem não tem independência cerebral para avaliar agendas.

Marielle tocou a vida privada e o mandato político com absoluta coerência. Com isso, conquistou respeito e irradiou confiança. Como integrante da equipe de Marcelo Freixo, por uma década viu passar pelo gabinete T04 do deputado estadual as raízes da decomposição social da cidade. Naquele espaço do andar térreo da Assembleia Legislativa desembarcavam desassistidos de várias vertentes — familiares de detentos, vítimas de truculência policial, denunciantes de ameaças falsas ou verdadeiras, órfãos do poder público.

Ao assumir-se como agente de mudança em voo solo, Marielle demonstrou ter foco e pressa. Em 13 meses de mandato apresentou 16 projetos de lei. Com foco em políticas públicas para mulheres, negros e a defesa da comunidade LGBT, sua atuação passou a ser descrita como voltada para “minorias”. Mas, no caso da sistemática eliminação de jovens pobres da vida brasileira, o termo não se aplica. Na verdade esse segmento é maioria absoluta. Cruel maioria.

Seis anos atrás, quando a taxa de homicídios de jovens entre 14 e 24 anos no Rio era de 52,5 para cada cem mil habitantes, este índice saltava para 80 para cada cem mil quando o corte focava em jovens da raça negra. Incrédulo, um correspondente do jornal japonês Yomiuri Shimbun (14,5 milhões de exemplares , duas edições diárias) que à época entrevistava Freixo, pensou não ter compreendido bem e pediu ao intérprete que confirmasse o dado.

O repórter ficaria ainda mais horrorizado diante de dados mais atuais. Uma compilação de cinco respeitados institutos citam o Brasil como o país mais violento do mundo, com 60 mil homicídios ao ano. Isso equivale à taxa registrada em Estados Unidos, China, Europa, África do Norte, Japão, Indonésia, Austrália, Canadá e Nova Zelândia somados.

Nos enterros de Marielle Franco e Anderson Gomes, o motorista do carro alvejado, nenhum representante do presidente Michel Temer, do governador Luiz Fernando Pezão ou do prefeito Marcelo Crivella se fez presente. Não fizeram falta. Ainda assim, isso diz muito sobre a distância entre os donos no poder, as instituições nacionais e o cidadão brasileiro. Os três governantes acharam mais prudente enviar notas de pesar à prova de povo.

Se os direitos humanos são “a última utopia” com chances de ser levada adiante, como teoriza Samuel Moyn, professor de História de Yale, que pelo menos a garotada com mais de 16 anos presente nas manifestações em homenagem a Marielle lhe dê razão.

Dorrit Harazim é jornalista

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