Neste dia 12 Conheça história de pais que são verdadeiros heróis dentro e fora de casa

Por Jéssica Eufrásio

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Para homens de diferentes áreas profissionais, tornar-se pai no século 21 é um desafio. A função sempre requereu amadurecimento, delicadeza e bastante paciência. Mas, enquanto lidam com os filhos, alguns também enfrentam ofícios delicados e estressantes, nos quais têm a vida de outras pessoas nas próprias mãos. Os níveis de coragem e concentração são quase os mesmos exigidos no cuidado com a prole. Três pais heróis em casa e nas áreas da segurança pública e da saúde contam ao Correio um pouco sobre a experiência de se dividir entre as funções paternas e o salvamento de pessoas.

Alguns filhos aguardam horas e horas pela chegada dos pais após um longo dia de trabalho; outros, sofrem com a angústia de aguardar o término dos longos expedientes sem saber se terão os pais de volta no fim do dia. Mas não são apenas as crianças e adolescentes que lidam com essas inquietações. Desde que teve o primeiro filho, o policial Anderson Diniz conta que mudou a forma de enxergar o próprio trabalho. “A gente começa a ter um cuidado a mais, uma vontade maior de voltar para casa. Quando o primeiro nasceu, senti um misto de medo e ansiedade pelo novo”, relata.

Pai de dois filhos, um de 14 e outro de 4 anos, Anderson não tem uma rotina leve. Ele trabalha como desarmador de bombas no Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). Na corporação há 19 anos, o militar não se esquece das situações em que temeu pela própria vida e lembrou de quem deixaria aqui. “Uma pessoa matou outra quase que na minha frente. Eu não tinha visto, e o assassino chegou a falar comigo sobre o fato. Me deu pistas falsas e saiu. Depois, um grupo de pessoas me disse o que ele havia feito e falaram que ele ainda estava armado enquanto conversávamos. Naquele momento, um filme passou pela minha cabeça”, relembra o policial.

Apesar da dose diária de adrenalina, a solução de Anderson para enfrentar a preocupação com a família é não pensar nos riscos que corre. “É arriscado praticamente todo dia, principalmente quando mexo com explosivos. Por isso, preciso fazer bem feito, não tem jeito. Mas acho que meus filhos já se acostumaram à minha rotina”, diz. Ele ainda conta que vê semelhanças entre o ofício e a paternidade: “Nos dois é necessário cuidado, zelo e temos de fazer tudo com o máximo de perfeição possível.”
Os meninos ficam sob os cuidados de Anderson com base no expediente do militar. São três dias de folga para cada 24 horas de trabalho. O mais velho, Gabriel Martins, afirma que realmente se acostumou à ocupação do pai e acredita que o ofício é importante. “Não ficamos muito preocupados, porque não há muitas ocorrências de bomba em Brasília. Mas o trabalho dele exige muita inteligência e esforço. Ele se dedica bastante”, considera.

Coração apertado

“Penso nas minhas filhas desde que saio de casa e as vejo apreensivas, pedindo para eu ficar. E elas perguntam: ‘Por que você não fica com a gente?’”. É com essa cena em mente que o bombeiro Cidemar Neves, 49, sai de casa quase todos os dias para o serviço. O sentimento de coração apertado serve como motivação para o militar nos momentos em que se coloca em risco enquanto tenta salvar pessoas em acidentes automobilísticos, afogamentos ou prédios em chamas.
Pai de três filhas, de 15, 4 e 8 anos, Cidemar conta que sempre enfrentou momentos delicados no trabalho. Das mais de duas décadas de serviço, 15 anos foram de atendimentos na ambulância da corporação. Durante esse período, ele acompanhou momentos de alegria de pais e mães quando auxiliava nos partos em casa ou a caminho do hospital. Até que a vez dele chegou. “Era sempre uma emoção muito grande ajudar as pessoas a trazer uma vida. Quando tive minha filha, foi marcante; um sonho realizado que eu via nas outras pessoas”, relembra, emocionado.
Depois da primogênita, vieram mais duas meninas. “Assim que a primeira nasceu, eu fiquei muito alegre. Por isso, acho até que não a recepcionei como deveria. Mas, quando as outras nasceram, eu já estava bem mais maduro e experiente”, afirma. O medo pelas vítimas atendidas aumentou e se misturou à preocupação com quem estava em casa. “É sempre um baque quando as pessoas morrem. Você fica com a sensação de que poderia ter feito mais. Resta aquele sentimento de que você falhou ou não foi capaz. As ocorrências envolviam terceiros, crianças de outros pais, e meu sentimento de carinho e proteção era sempre o mesmo”, pondera o bombeiro.
Quando Cidemar integrava o batalhão de buscas e salvamentos, a família chegou a acompanhar pela televisão algumas das operações de que ele participou. O alívio — da mulher, das filhas e do próprio militar — vinha com o fim do expediente. “Elas ficavam preocupadas com meu regresso, imaginando o risco que eu estava correndo. Às vezes, tentavam falar comigo e não conseguiam. Com a paternidade, parece que temos um motivo a mais para viver melhor, ajudar mais e voltamos para casa com vontade de rever os filhos.”
O trabalho do bombeiro enche as filhas de orgulho. Para a mais velha, Carla Larissa Brito, Cidemar é um exemplo. Apesar da angústia sentida quando ele está na rua, ela tenta não perder contato para saber como o pai está. “De vez em quando, ficamos em casa preocupadas, porque sabemos que ele corre riscos. Quando está no trabalho, sempre mando mensagens, pergunto se está tudo bem e como estão as coisas.” Questionada sobre como definiria Cidemar, Carla Larissa não titubeou: “Ele é meu herói. É corajoso. Por ser militar, ele é muito rígido, mas, quando estamos próximos, é bastante carinhoso”, elogia a estudante.
O médico Marcus Vinicius com o filho, Vinicius Santos: ajuda na hora de compreender as tarefas um do outro (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )

Sensibilidade

Há 17 anos, quando Vinicius Santos, filho do médico Marcus Vinicius Santos, 51, nasceu, a tarefa do pai era se dividir entre as 14 horas de trabalho e os cuidados com o bebê. Pai de primeira viagem, o cirurgião cardiovascular carioca, morador de Brasília há 13 anos, atuava na profissão desde os 24. À época do nascimento do filho, Marcus Vinicius realizava duas cirurgias cardíacas por dia, fora os implantes de marcapasso. “Eu tentava conciliar meus horários com os da mãe para ficar o maior tempo possível com ele. Hoje em dia, a rotina não mudou muito, mas ele compreende mais minha profissão. Até por isso, ele não quis medicina de jeito nenhum”, brinca.
Para Marcus Vinicius, a paternidade demanda muita responsabilidade na criação e na orientação de caminhos. Hoje, ele e o filho se ajudam na hora de compreender as tarefas um do outro. “Quando não estamos em contato físico, estamos em contato telefônico. Tenho muita sorte nesse sentido. Sempre conversamos sobre nossos problemas. E, por mais ocupado que esteja, você precisa estar atento ao que acontece na escola e com as amizades dos seus filhos”, alerta.
O médico conta que entende melhor o sentimento de outros pais e que o sofrimento com crianças hospitalizadas costuma ser duplo. Por isso, ele acrescenta que, ao longo do dia de trabalho, o pensamento viaja para além das paredes do hospital. “Não é incomum tratarmos de crianças com cardiopatia congênita. Operamos desde recém-nascidos até adolescentes, e eu me coloco muito na posição desses pais que precisam enfrentar cirurgias de resultados um pouco imprevisíveis. Minha sensibilidade aumentou muito depois que me tornei pai”, finaliza.

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